A Casa das Histórias Paula Rego volta a cumprir aquilo que melhor sabe fazer: abrir espaço à inquietação, à memória e à reflexão. A inauguração simultânea de duas novas exposições: “Meninas Exemplares” e “O Exilado: da Criação à Conservação” traz não apenas novas leituras sobre a obra da pintora, mas também novas formas de nos aproximarmos dela.
“Meninas Exemplares” revela a visão peculiar da pintora sobre a infância no feminino

Há exposições que se visitam. E há exposições que nos obrigam a parar. “Meninas Exemplares”, com curadoria de Catarina Alfaro, pertence claramente à segunda categoria, não só pelo que mostra, mas pela forma como nos conduz ao longo do seu percurso.
Distribuída entre a sala 1 e a sala 6, a exposição constrói-se como uma narrativa contínua que reúne séries fundamentais da obra gráfica de Paula Rego. Ao longo deste trajeto, destacam-se as litografias coloridas à mão “O vestido cor de salmão” e “Comunhão”, apresentadas em diálogo direto com os poemas de Adília Lopes (1960–2024) que lhes deram origem. Aqui, imagem e palavra não se ilustram mutuamente, confrontam-se, ampliam-se e criam um território comum onde a leitura é também emocional.
É precisamente neste cruzamento que a curadora Catarina Alfaro sublinha uma das chaves da exposição:
“As características emocionais e comportamentais das meninas, assim descritas por Adília Lopes nos poemas, revelam aspetos da personalidade de ambas as criadoras: desafiadoras, desconcertantes, irreverentes, e que afirmam a sua expressividade num país manifestamente patriarcal e católico, ainda marcado pela rigidez da realidade política e social.”

Esta leitura atravessa toda a exposição e ajuda a compreender porque é que as figuras de Paula Rego continuam a perturbar. Longe de qualquer idealização da infância, as personagens expostas revelam um território ambíguo onde convivem inocência e crueldade, poder e vulnerabilidade.
A presença da literatura é, aliás, uma constante. Obras das séries “Jane Eyre” (2001–2002), inspiradas em Charlotte Brontë, e “Bruxas de Pendle” (1996), a partir de Blake Morrison, aprofundam essa relação, explorando a psicologia feminina em toda a sua complexidade, da sedução ao domínio, da fragilidade à resistência, da submissão à afirmação identitária.
Mas é talvez na série “Mutilação Genital Feminina” (2009) que a exposição atinge um dos seus momentos mais contundentes. Composta por seis gravuras, esta série rompe qualquer distância confortável e confronta diretamente o visitante com práticas de violência de género que continuam a marcar a vida de milhares de meninas em todo o mundo. Aqui, a obra de Paula Rego afirma-se sem ambiguidade como gesto político e cívico.

“O Exilado: da Criação à Conservação” – O trabalho invisível de quem cuida do nosso património
Se “Meninas Exemplares” nos mergulha num universo simbólico e emocional denso, “O Exilado: da Criação à Conservação” propõe uma mudança de perspetiva, quase como se nos convidasse a olhar para dentro da própria matéria da obra.
Pela primeira vez, a Casa das Histórias expõe ao público o processo técnico de conservação de uma obra de Paula Rego. No centro está “O Exilado”, uma peça onde pintura e colagem se entrelaçam para contar a história de um homem preso entre o passado e a memória da sua própria juventude.

O que esta exposição revela vai além da narrativa visual. Através de uma investigação multidisciplinar conduzida por especialistas da NOVA FCT e do Laboratório José de Figueiredo, foram identificadas colagens ocultas, alterações feitas pela própria artista e marcas inevitáveis da passagem do tempo. Há algo de profundamente humano nesta abordagem: perceber que uma obra também envelhece, também se transforma e que cuidar dela é, de certa forma, continuar a sua história.
Durante a inauguração, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, sublinhou a importância deste momento como mais um marco cultural no concelho, reforçando o papel da Casa das Histórias como um espaço vivo, que cruza criação, investigação e proximidade com o público.
Mais do que duas exposições distintas, esta inauguração constrói um diálogo raro entre o gesto criativo e o trabalho invisível da sua preservação. E talvez seja aí que reside a sua força: não apenas no que nos mostra, mas na forma como nos ensina a olhar.
As exposições podem ser visitadas até 31 de janeiro de 2027, de terça-feira a domingo, entre as 10h00 e as 18h00. E, à saída, fica a sensação de que Paula Rego continua a fazer exatamente o que sempre fez – obrigar-nos a ver aquilo que muitas vezes preferíamos evitar.




